LOST

A cultura de transmidialização ganhou um novo patamar de massas com a criação da série Matrix (nos quais não apenas era necessário ver os filmes, mas fazer pesquisas, compreender as referencias, jogar os jogos e ver os desenhos para poder compreender a história que estava sendo contada).

As referências de Matrix são tão vastas, da bíblia à filmes trashs cibernéticos que pode-se dizer que sem a convergência de culturas, não existiria o filme. É o palimpsesto da cultura moderna, a antropofagia – pegar diferentes textos de diferentes meios, degluti-los e transforma-los em um novo texto, um texto que é tão rico e variado em caracteristicas e cujo universo tem tanta capacidade que a expansão dessa nova criação para outros meios vem facilmente. Nascido da cultura de convergência, a série Matrix teve a possibilidade de transmidialização sempre muito aberta.

A TV, que não é boba nem nada, aproveitou essa potencialidade que tem duas vertentes: a primeira é criar subprodutos (puro marketing e vendas, ação promocional) e a outra, e mais importante para nós, é a expansão do universo e melhor compreensão dos acontecimentos e, especialmente, a criação de uma narrativa transmidiática.

A série Lost, a primeira vista, pode parecer um grande clichê: Um grupo de desconhecidos sofre um acidente de avião e cai em uma misteriosa ilha, tendo que tentar sobreviver frente a um grande numero de adversidades. Essa premissa já foi feita e refeita, abordada em filmes, livros e em outras séries de TV. Por que uma emissora de TV americana, a 4a em audiência, apostaria todas as suas fichas em uma série como essas? Qual é o grande diferencial de LOST?

Pra começar, seu episódio piloto foi o mais caro da televisão mundial – custando entre 14 e 15 milhões de dólares – e isso já chamava muita atenção. Além disso, sua divulgação não se focava no aspecto de sobrevivência da série, e sim nos muitos mistérios que a série abordaria e que levariam futuramente os fãs a loucura: O que um urso polar está fazendo em uma floresta tropical? O que é essa fumaça negra que derruba árvores e mata pobres inocentes?

Tudo isso gera um desejo no espectador de se tornar “detetive” – encontrar, em pequenas pistas, algum traço de lógica que nos faça compreender “the bigger picture”, ou seja,  somente na criação desses mistérios já matamos duas caracteristicas levantadas por Jason Mittel: a primeira sendo o encorajamento ao fanatismo forense, que obriga o espectador a pesquisas em fóruns e rever os episódios para criar teorias de “por quês” para os acontecidos; e a segunda é o propósito unificado – cada parte remete ao todo, cada pequeno mistério tem sua lógica própria que nos ajuda a compreender a lógica geral da Ilha e aos poucos vai desvendando as grandes questões: o que é aquela ilha? por que eles estão ali?

O último capítulo da segunda temporada serve bem para ilustrar essas questões. Nesse episódio vemos Michael tramando enganar seus amigos para atraí-los para perto dos “Outros” e recuperar seu filho Walt. Para isso, mata duas inocentes e atira em seu próprio braço, convencendo a todos de que é uma vitima e obrigando somente Jack, Kate, Sawyer e Hurley a irem com ele resgatar seu filho. Sayid, no entanto, percebe a mentira de Michael e arma um plano de ir no veleiro de Desmond ajudá-los. Desmond, que havia sumido por um tempo, acaba de retornar para a ilha, desiludido, ao perceber que não é possível fugir daquele lugar. Já aí vemos um mistério menor (por que não foi possível velejar para fora da ilha?) que nos ajuda a formar um arco maior (o que é essa ilha e o que faz com que essas pessoas estejam ali?). Desmond e Locke, juntos, trancam Mr. Eko para fora da escotilha, afim de ver o que aconteceria caso não apartacem o botão – entra aí, pela primeira vez, a solução do grande mistério da temporada: o que é aquele botão e para que ele serve e como, talvez, ele seja o culpado pela queda do avião (há aí também outro elemento de surpresa). Você começa, com essa resposta e o conhecimento vindo dos outros episodios, a compreender o que é a DHARMA – grande mistério que vai aos poucos sendo revelado através de um movimento de detetive do espectador. O episódio acaba com Michael e Walt indo embora, o plano de Sayid falhando e Jack, Kate e Sawyer sendo preso pelos “Outros”, causando o elemento de nível mais profundo de surpresa. Ou seja, todas as caracteristicas listadas por Mittel em um só episodio.

Essa estética atraiu muitos espectadores que logo se identificaram com aquele grupo de cativantes personagens e mergulharam em suas diversas histórias interligadas. As tramas eram interessantíssimas, as dúvidas que surgiam eram muitas e deliciosas de se ter. Com a junção de todos esses fatores, a primeira temporada de Lost foi um grande sucesso de audiência. No entanto, a maioria das séries acaba passando por uma queda de audiência nas temporadas futuras, elas perdem seus espectadores casuais. Muitos que procuravam explicações imediatas se cansaram do estilo de Lost, que criava cada vez mais mistérios sem dar as respostas esperadas. Os criadores estavam focados em elaborar um arco maior para a série, e isso frustrava muitos. Logo, a audiência da série caiu muito e estabilizou. Isso em muitos outros casos significaria um cancelamento na certa, mas Lost ficou.

Isso ocorreu porque a série criou um público fiel que não só a assistia, mas utilizava outros meios, principalmente a Internet, para comentar sobre ela. O episódio não acabava com os créditos. Ele continuava nos blogs, Fóruns de Discussão e podcasts. O verdadeiro fã de Lost não só assiste os 42 minutos de episódio, mas passa pelo menos as próximas 5 horas confabulando sobre o que acabou de ver, tentando encontrar explicações fazendo ligações externas com outros temas e criando teorias muitas vezes mirabolantes. A internet se tornou o ponto de encontro de todos esses espectadores, e vale ressaltar que Lost por muito tempo foi a série mais baixada na rede. Por isso, inúmeros fóruns foram criados, fanfics, além de canais no youtube, que tentavam explicar os episódios e divulgar as “teorias” mais aceitas pelos fãs (sendo o mais famoso deles o do Seannie B.) e, até mesmo, a Lostpédia, que te ajuda a relembrar antigos mistérios ao longo do caminho, tornando não busca por um elo entre os mistérios mais fácil mas o arco dramático mais evidente. Se para Henry Jenkins transmidia é construir possibilidades narrativas que gerem diversos nichos e mudanças de significado (destituição de um sentido original), além de associações novas que alterem sentido e agreguem outras conotações ao produto inicial – sendo que essa destituição de sentido, fora do controle de quem produziu a informação original, depende da inteligência coletiva – LOST pode ser visto como seu exemplo máximo.

O que Jenkins ressalta em seu livro “Cultura da Convergência”: quando o poder do produtor de midia se mistura com o do consumidor e passa a existir uma apropriação popular onde são os consumidores que movem a circulação de conteudos, ou seja, metade da criação da série se deve aos seus fãs, são eles que criam o universo Lost e o expandem para além das possibildiades que os roteiristas e produtores previram (e acabam gerando ideias para futuras temporadas). Isso logo foi percebido pelos produtores, e muito apreciado. Era uma boa forma de prender aqueles que sobraram até o fim, e não uma ameaça ao controle criativo da série. Se os espectadores utilizavam a rede para dar continuidade a série, as pessoas por trás dela a utilizariam também. Dessa forma criou-se, por exemplo, o LOST EXPERIENCE, um ARG que abordava a instituição DHARMA dando dicas do que estava por vir. Muitos vídeos teasers, tão misteriosos quanto a série, foram feitos e soltos na internet, e eram divulgados em uma rapidez e proporção gigantesca pelos próprios fãs. Tudo isso surge como uma forma de, utilizando outras mídias, estender a linha narrativa da série, aumentar a curiosidade dos fãs e promover as novas temporadas.

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2 Comentários

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2 Respostas para “LOST

  1. annaliviams

    quero terceira temporada. cadê?

  2. @renatagames

    Menino e meninas, vocês sacaram tudo do que o Jenkins aponta em relação a uma certa potência da “multidão” (para usar um termo das ciências políticas) de criar novos fluxos para os produtos de mídia – no caso, Lost. O problema é que esses novos fluxos são prontamente percebidos pelos produtores e captados (ou seja, domesticados em seus ruídos) em favor dos lucros do showbiz. Aí, o que era potência acaba se esvaziando e cabe ao público gerar novos fluxos, opondo sempre resistência à sua captura. Vou colocar no blog um post sobre um momento bastante suis generis nessa luta entre produtores oficiais e espectadores-produtores – a invasão do movimento Occupy Wall Street do set de Law & Order SVU.

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