Mentira. Não é um adeus, é um até logo. Até logo porque nos dias de hoje não tem muito como fugir da hipermidia e da convergência, e das narrativas transmidias. Inevitavelmente, vamos rever essa matéria e esses post por muito tempo ainda.
É muito dificil analisar um período quando ele ainda está em formação. Ver o presente imparcialmente é tarefa quase que impossível. Analisar o nascimento e as consequências dessas narrativas transmídia e como a internet afeta o mercado de audiovisual e suas produção, e como usá-la a nosso favor é algo muito complicado e que ainda se encontra na fase de tentativa e erro.
Mas esse assunto de narrativa transmidia me parece ser muito muito muito importante, pois é com isso que vamos trabalhar no futuro: com a transferência de poder criativo do produtor para o consumidor. E quem pensa em estudos teóricos e pensa em roteiros e narrativas, como fazemos para analisar/criar esse papel no espectador dentro da construção de um roteiro?
Pensando nisso eu fiz meu trabalho final de Edição de Multimidia sobre a necessidade pós-moderna de transmidialização da literatura e como é essa pseudo-verdade que se cria com a expansão do livro virou maneira atual de estar de fato imerso num universo criativo.
Essa nova era não representa, para mim, a morte do cinema como o conhecemos, ou da tv, ou da literatura. Não é a destruição de antigas tecnologias, mas a adaptação delas para novas coisas, novas possibilidades que podem nos permitir contar histórias nunca antes contadas. Talvez, seja sim a morte do modelo de produção estabelecido, a produção, destribuição e a maneira como se obtém lucro, tudo isso vai mudar, já está mudando. Como vai ficar? Não sei, o que eu sei é que todos nós vamos nos adaptar, não é necessário ter medo de um grande colapso e pensar que no futuro tudo será game, trans-cinema.
Temos que nos lembrar que o objetivo principal dessas novas criações é contar histórias da melhor maneira possível, e o que importa não é a tecnologia, linguagem usada, ou vantagens capitalistas em cima disso, mas sim a história que se conta. E é por isso que revisitaremos essa matéria muitas vezes, ela nos servirá como guia de criação para essas novas possibilidades. Nos servirá como uma maneira de abrir nossa cabeça para criarmos narrativas que possam explorar ao maximo esse universo de possibilidades de converngências, transmidias, redes sociais, etc etc etc.
Bom, é isso. Essa é minha forma de terminar o curso. Talvez fazendo um post meio sem muito sentido, mas… já que não vou jogar video-game com todo mundo, achei que talvez isso fosse um bom encerramento pra mim.
Steven Johnson, autor do livro Emergência: a Vida Integrada de Formigas, Cérebros, Cidades e Softwares caracteriza sistema emergente como um sistema de múltiplo agentes, interagindo dinamicamente de diversas formas, seguindo regras locais e não percebendo qualquer instrução de nível mais alto. Elas devem, no entanto, gerar um macrocomportamento observável e relevante, demonstrando a criação de um comportamento coletivo, que não parte de um top-down (uma ordem superior que comanda a todos) e sim de um bottom-up (no qual a própria base se organiza sozinha, se auto-gerindo).
Essa organização dos seres humanos pode ser vista como anos de evolução, um certo inconsciente coletivo que aproxima nossas formas de pensar/compreender o mundo, tornando a formação de uma ordem algo natural. O uso dessa criação coletiva é muito visto na internet. É claro que existem regras na internet (segue-se aqui também as leis de cada país, podendo ser processado e etc) e existe uma gerência de dados (empresas, grupos, hospedeiros – uma entidade superior que, caso necessário, pode vir a controlar o conteúdo), mas a criação de conteúdo em diversos sites vem do coletivo. É o bottom-up novamente: os próprios usuários criando conteúdo para eles, sofrendo pouquíssima interferencia do líder (topo). É o caso, por exemplo, do Youtube, a Wikipédia (que já é mais complexa e restrita, mas mesmo assim é colaborativa) e o 9GAG
O que Jenkins ressalta em seu livro “Cultura da Convergência”: quando o poder do produtor de midia se mistura com o do consumidor e passa a existir uma apropriação popular onde são os consumidores que movem a circulação de conteudos aconte nesses sites de construção coletiva.
O 9gag, por exemplo, é inteiramente criado por seus usuarios, seus donos apenas gerenciam a programação. Os conteúdos, como virou base da internet hoje, são convergentes de diferentes midias/meios culturais: fotos, desenhos, videos, noticias, tudo isso REAPROPRIADO criativamente, gerando memes (como nos exemplos a seguir)
Memes são, segundo a Wikipédia (oooh the irony!) considerados como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento ou cérebros. No que diz respeito à sua funcionalidade, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode de alguma forma autopropagar-se. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autônoma.
Se para Henry Jenkins transmidia é construir possibilidades narrativas que gerem diversos nichos e mudanças de significado (destituição de um sentido original), além de associações novas que alterem sentido e agreguem outras conotações ao produto inicial – sendo que essa destituição de sentido, fora do controle de quem produziu a informação original, depende da inteligência coletiva, a convergência de midias/informações no 9gag, cujo subtitulo é “just for fun” dá um novo sentido ao meterial original, torando-o comico a partir da reapropriação e interferencia nesse material, ou simplesmente por ele estar ali no site, podendo já te cara, pura e simplesmente, ser entendido como um trocadilho.
Como prevê Johnson, as culturas emergentes vão se tornando “mais espertas, mais útil para seus habitantes. E aqui, outra vez, a coisa mais extraordinária é que esse aprendizado emerge sem que ninguém tenha conhecimento dele”. (p. 79). O mesmo ocorre no 9gag. Uma vez criado um meme, ele se repete eternamente, sua reapropriação vira óbvia e ele entra no insconciente coletivo de tal forma que transpassa do mundo virtual (internet, não só no próprio site no 9gag, como na compartilhação desse dado através de redes sociais). De repente, esse meme chega ao dia-a-dia das pessoas, e é usado em conversas cotidianas e até mesmo pessoas que não frequentam o site 9gag passam a ter um conhecimento desses memes. Exemplo de uso no dia-a-dia:
O 17o Festoval Internacional de Arte Contemporânea – SESC_Videobrasil, conta com diversas obras no SESC Belenzinho, SESC Pompéia e na Pinacoteca do Estado. Entre elas, uma que me chamou especialmente a atenção foi a videoinstalação de 2010 do artista Pablo Lobato, intitulada Bronze Revirado. A obra resgistra os bastidores da execução de um toque de sino festivo em uma igreja de São João Del Rey, Minas Gerais.
Pablo Lobato, mineiro de origem, fez um recorte específico da tradição religiosa da região, mas poderia tê-lo feito de diversas maneiras – a história por trás dos jovens tocadores de sino poderia ter sido explorada, os acidentes envolvidos no processo, o significado e a importância da tradição e o risco que eles estão constantemente correndo ao tocarem o sino. Mas mesmo sem explicitar essas histórias para o espectador, simplesmente colocando uma câmera para captar a ação e disponibilizando as imagens captadas, possibilita, a partir de seu acesso, que o espectador vivencie a experiência de modo mais intenso, podendo passar pela sua cabeça muitas dessas dúvidas e questões intrigantes que são intrínsecas ao momento registrado e sua carga sensitiva.
A cidade de São João del Rei é conhecida como a “terra onde os sinos falam” pois é a única cidade no Brasil onde os sinos ainda são ouvidos de dia e de noite com tantas variedades de toques. Outras cidades também mantêm a tradição, como as cidades de Ouro Preto, Mariana, Catas Altas, Congonhas, Diamantina, Sabará, Serro e Tiradentes, mas em São João del Rei a utilização dos sinos é intensa. Apesar de ser um costume na região, para quem não está inserido nessa realidade, ter a chance de observar, mesmo que através de um video, um sino sendo tocado causa estranhamento imediato.
À primeira vista, é inevitável pensar que a movimentação dos tocadores ao manipularem o sino não passe de uma brincadeira bem elaborada. Mas aos poucos vai ficando claro que o esforço envolvido depende de uma convicção interior enorme, e que existe uma precisão impecável para que o sino não atinja nenhum dos homens, o que causaria um estrago imenso com a força com que ele está sendo movimentado.
O impacto do vídeo cresce muito, sem dúvida, quando visto em forma de instalação: a imagem ganha um tamanho próximo ao real, e a tela, estreita, se localiza entre duas paredes pretas que constroem uma espécie de corredor, criando uma passagem enclausurada que intensifica a imersão sentida por quem visita a exposição. O som alto do sino e seu ritmo forte e constante só contribuem ainda mais para que a obra se torne praticamente hipnótica para quem a presencia. A aflição causada pela expectativa de que a qualquer momento um dos garotos possa ser atingido, ou até mesmo caia do topo da igreja, é sempre constante, e a tensão só aumenta quando as duplas de tocadores vão se substituindo sucessivamente em um nível de adrenalina muito elevado, levando muitos dos rapazes a fazerem o sinal da cruz antes de embarcarem no perigo.
Contextualizada em uma exposição, a obra ganha um teor especial: não assistimos o vídeo como se fosse um documentário, um registro direto de uma realidade cotidiana. Quem está presente, se encanta puramente pelo movimento equilibrado que vai se tornando uma coreografia inquietante – ela envolve e prende completamente a atenção de quem está lá. Ao visitar a exposição, fiquei impressionada com o interesse particular das crianças pela obra. Elas se aproximam muito da tela e acabam abaixando quando o sino se aproxima. Se entregam fisicamente à intensidade dos movimentos dos tocadores, e os acompanham em sua coreografia. Parecem vidradas na tela, e só saem de perto depois de muita insistência por parte dos pais. Em um momento o vídeo se reinicia, e no começo aparece apenas o sino, parado, sem ninguém presente para tocá-lo. Tive a chance de observar mais de uma criança tocando a tela, a fim de puxar a cordinha para movimentar o sino. Outras chegam a gritar, chamando pelos homens, animadas para participarem novamente do que, para elas, parece uma brincadeira.
Por alguns instantes imerso neste momento captado por Lobato, quem vê a obra não chega a pensar que a coreografia por de trás dos sinos que está sendo apresentada, acontece em função de festividades ou eventos religiosos com a responsabilidade de comunicar. “E os sineiros, guardiões dessa peculiar forma de comunicação, em suas sucessivas gerações, anunciam e pontuam diversas ocasiões com seus festivos repiques ou lúgubres dobres. Do alto dos campanários delas participam à distância, anonimamente. Afinal de contas, quem toca sino não acompanha procissão.” (Quem toca o sino não acompanha a procissão: toques de sino e ambiente festivo em Ouro Preto MONTANHEIRO, Fábio César).
A cultura de transmidialização ganhou um novo patamar de massas com a criação da série Matrix (nos quais não apenas era necessário ver os filmes, mas fazer pesquisas, compreender as referencias, jogar os jogos e ver os desenhos para poder compreender a história que estava sendo contada).
As referências de Matrix são tão vastas, da bíblia à filmes trashs cibernéticos que pode-se dizer que sem a convergência de culturas, não existiria o filme. É o palimpsesto da cultura moderna, a antropofagia – pegar diferentes textos de diferentes meios, degluti-los e transforma-los em um novo texto, um texto que é tão rico e variado em caracteristicas e cujo universo tem tanta capacidade que a expansão dessa nova criação para outros meios vem facilmente. Nascido da cultura de convergência, a série Matrix teve a possibilidade de transmidialização sempre muito aberta.
A TV, que não é boba nem nada, aproveitou essa potencialidade que tem duas vertentes: a primeira é criar subprodutos (puro marketing e vendas, ação promocional) e a outra, e mais importante para nós, é a expansão do universo e melhor compreensão dos acontecimentos e, especialmente, a criação de uma narrativa transmidiática.
A série Lost, a primeira vista, pode parecer um grande clichê: Um grupo de desconhecidos sofre um acidente de avião e cai em uma misteriosa ilha, tendo que tentar sobreviver frente a um grande numero de adversidades. Essa premissa já foi feita e refeita, abordada em filmes, livros e em outras séries de TV. Por que uma emissora de TV americana, a 4a em audiência, apostaria todas as suas fichas em uma série como essas? Qual é o grande diferencial de LOST?
Pra começar, seu episódio piloto foi o mais caro da televisão mundial – custando entre 14 e 15 milhões de dólares – e isso já chamava muita atenção. Além disso, sua divulgação não se focava no aspecto de sobrevivência da série, e sim nos muitos mistérios que a série abordaria e que levariam futuramente os fãs a loucura: O que um urso polar está fazendo em uma floresta tropical? O que é essa fumaça negra que derruba árvores e mata pobres inocentes?
Tudo isso gera um desejo no espectador de se tornar “detetive” – encontrar, em pequenas pistas, algum traço de lógica que nos faça compreender “the bigger picture”, ou seja, somente na criação desses mistérios já matamos duas caracteristicas levantadas por Jason Mittel: a primeira sendo o encorajamento ao fanatismo forense, que obriga o espectador a pesquisas em fóruns e rever os episódios para criar teorias de “por quês” para os acontecidos; e a segunda é o propósito unificado – cada parte remete ao todo, cada pequeno mistério tem sua lógica própria que nos ajuda a compreender a lógica geral da Ilha e aos poucos vai desvendando as grandes questões: o que é aquela ilha? por que eles estão ali?
O último capítulo da segunda temporada serve bem para ilustrar essas questões. Nesse episódio vemos Michael tramando enganar seus amigos para atraí-los para perto dos “Outros” e recuperar seu filho Walt. Para isso, mata duas inocentes e atira em seu próprio braço, convencendo a todos de que é uma vitima e obrigando somente Jack, Kate, Sawyer e Hurley a irem com ele resgatar seu filho. Sayid, no entanto, percebe a mentira de Michael e arma um plano de ir no veleiro de Desmond ajudá-los. Desmond, que havia sumido por um tempo, acaba de retornar para a ilha, desiludido, ao perceber que não é possível fugir daquele lugar. Já aí vemos um mistério menor (por que não foi possível velejar para fora da ilha?) que nos ajuda a formar um arco maior (o que é essa ilha e o que faz com que essas pessoas estejam ali?). Desmond e Locke, juntos, trancam Mr. Eko para fora da escotilha, afim de ver o que aconteceria caso não apartacem o botão – entra aí, pela primeira vez, a solução do grande mistério da temporada: o que é aquele botão e para que ele serve e como, talvez, ele seja o culpado pela queda do avião (há aí também outro elemento de surpresa). Você começa, com essa resposta e o conhecimento vindo dos outros episodios, a compreender o que é a DHARMA – grande mistério que vai aos poucos sendo revelado através de um movimento de detetive do espectador. O episódio acaba com Michael e Walt indo embora, o plano de Sayid falhando e Jack, Kate e Sawyer sendo preso pelos “Outros”, causando o elemento de nível mais profundo de surpresa. Ou seja, todas as caracteristicas listadas por Mittel em um só episodio.
Essa estética atraiu muitos espectadores que logo se identificaram com aquele grupo de cativantes personagens e mergulharam em suas diversas histórias interligadas. As tramas eram interessantíssimas, as dúvidas que surgiam eram muitas e deliciosas de se ter. Com a junção de todos esses fatores, a primeira temporada de Lost foi um grande sucesso de audiência. No entanto, a maioria das séries acaba passando por uma queda de audiência nas temporadas futuras, elas perdem seus espectadores casuais. Muitos que procuravam explicações imediatas se cansaram do estilo de Lost, que criava cada vez mais mistérios sem dar as respostas esperadas. Os criadores estavam focados em elaborar um arco maior para a série, e isso frustrava muitos. Logo, a audiência da série caiu muito e estabilizou. Isso em muitos outros casos significaria um cancelamento na certa, mas Lost ficou.
Isso ocorreu porque a série criou um público fiel que não só a assistia, mas utilizava outros meios, principalmente a Internet, para comentar sobre ela. O episódio não acabava com os créditos. Ele continuava nos blogs, Fóruns de Discussão e podcasts. O verdadeiro fã de Lost não só assiste os 42 minutos de episódio, mas passa pelo menos as próximas 5 horas confabulando sobre o que acabou de ver, tentando encontrar explicações fazendo ligações externas com outros temas e criando teorias muitas vezes mirabolantes. A internet se tornou o ponto de encontro de todos esses espectadores, e vale ressaltar que Lost por muito tempo foi a série mais baixada na rede. Por isso, inúmeros fóruns foram criados, fanfics, além de canais no youtube, que tentavam explicar os episódios e divulgar as “teorias” mais aceitas pelos fãs (sendo o mais famoso deles o do Seannie B.) e, até mesmo, a Lostpédia, que te ajuda a relembrar antigos mistérios ao longo do caminho, tornando não busca por um elo entre os mistérios mais fácil mas o arco dramático mais evidente. Se para Henry Jenkins transmidia é construir possibilidades narrativas que gerem diversos nichos e mudanças de significado (destituição de um sentido original), além de associações novas que alterem sentido e agreguem outras conotações ao produto inicial – sendo que essa destituição de sentido, fora do controle de quem produziu a informação original, depende da inteligência coletiva – LOST pode ser visto como seu exemplo máximo.
O que Jenkins ressalta em seu livro “Cultura da Convergência”: quando o poder do produtor de midia se mistura com o do consumidor e passa a existir uma apropriação popular onde são os consumidores que movem a circulação de conteudos, ou seja, metade da criação da série se deve aos seus fãs, são eles que criam o universo Lost e o expandem para além das possibildiades que os roteiristas e produtores previram (e acabam gerando ideias para futuras temporadas). Isso logo foi percebido pelos produtores, e muito apreciado. Era uma boa forma de prender aqueles que sobraram até o fim, e não uma ameaça ao controle criativo da série. Se os espectadores utilizavam a rede para dar continuidade a série, as pessoas por trás dela a utilizariam também. Dessa forma criou-se, por exemplo, o LOST EXPERIENCE, um ARG que abordava a instituição DHARMA dando dicas do que estava por vir. Muitos vídeos teasers, tão misteriosos quanto a série, foram feitos e soltos na internet, e eram divulgados em uma rapidez e proporção gigantesca pelos próprios fãs. Tudo isso surge como uma forma de, utilizando outras mídias, estender a linha narrativa da série, aumentar a curiosidade dos fãs e promover as novas temporadas.
Em seu livro Emergência: a Vida Integrada de Formigas, Cérebros, Cidades e Softwares, Steven Johnson defende o conceito de sistemas emergentes e suas aplicações em softwares e AIs. Emergência pode ser compreendido como “comportamentos dos sistemas que ‘reagem às necessidades específicas e mutantes de seus ambientes” (p. 15), constituindo padrões no espaço e no tempo” (retirado da resenha de Nelson Fiedler-Ferrar). Segundo a wikipédia: “Um comportamento emergente ou propriedade emergente pode aparecer quando uma quantia de entidades (agentes) simples operam em um ambiente, formando comportamentos complexos no coletivo. A propriedade em si é comumente imprevisível e imprecendente, e representa um novo nível de evolução dos sistemas. O comportamento complexo ou as propriedades não são a propriedade de nenhuma entidade em particular, e eles também não podem ser previstos ou deduzidos dos comportamentos das entidades em nível baixo”.
Tendo esse conceito de sistemas emergentes em mente, podemos compreender que a própria vivencia no coletivo provoca, mesmo que involuntariamente, um padrão comportamental/ de organização. Tudo ao nosso redor pode ser visto como o início de um sistema emergente – uma dinâmica familiar durante um almoço, por exemplo (como quase que intuitivamente todos já sabem onde vão sentar e qual será o processo para cada um pegar sua comida). Talvez esses padrões sejam muito simples para formar um processo emergente tal como Johnson ilustra, mas já demonstra a criação desse comportamento coletivo, que não parte de um top-down (uma ordem superior que comanda a todos) e sim de um bottom-up (no qual a própria base se organiza sozinha, se auto-gerindo). Essa organização dos seres humanos pode ser vistta como anos de evolução, um certo inconsciente coletivo que aproxima nossas formas de pensar/compreender o mundo, tornando a formação de uma ordem algo natural.
É engraçado pensar como esses processos top-down e bottom-up lembram o ideal anarquista. Para o anarquismo, a revolução seria um meio de derrubar o poder vigente e instaurar um governo temporário, que até a estabilização da situações, iria gerir o estádo num sistema top-down (alguns líderes organizariam a economia e a politica), até que o povo estivesse em condição de se auto-gerir, num sistema bottom-up, no qual não existiria governo e sim uma gestão coletiva do estado, havendo ordem e organização sem a existência de uma liderança isolada. É claro que esse ideal não funcionaria em grandes cidades, onde a comunicação coletiva não é possível e igual para todos, mas em pequenas comunidades esse é um sistema possível.
O uso dessa criação coletiva é muito visto na internet. É claro que existem regras na internet (segue-se aqui também as leis de cada país, podendo ser processado e etc) e existe uma gerência de dados (empresas, grupos, hospedeiros – uma entidade superior que, caso necessário, pode vir a controlar o conteúdo), mas a criação de conteúdo em diversos sites vem do coletivo. É o bottom-up novamente: os próprios usuários criando conteúdo para eles, sofrendo pouquíssima interferencia do líder (topo). É o caso, por exemplo, do Youtube, 9gag, e até mesmo a Wikipédia (que já é mais complexa e restrita, mas mesmo assim é colaborativa).
Quando a adaptação desses sistemas para que eles possas prever comportamentos futuros, segundo Johnson é uma questão difícil, uma vez que a emergência parte da combinação de inúmeros agentes agindo de maneira aleatória, formando combinações infinitas que acabam por formar um padrão. “Como tornar um sistema auto-organizado mais adaptativo é uma questão difícil de ser trabalhada, uma vez que envolve a necessidade de saber como proceder a otimizações que permitam definir as “dosagens” adequadas dos elementos incluídos (massa crítica, densidade de interconexão, nível de aleatoriedade, eficiência na capacidade de discernir padrões, nível de interação com vizinhos) em cada um dos princípios fundamentais. E isso não se sabe como fazer.” (resenha)
Apesar da simplicidade do conceito quando aplicado ao dia-a-dia, a auto-gestão e processos emergentes na internet tornam-se questões bem complexas e até mesmo assustadoras. Se for possível adaptar esses sistemas para que eles consigam ler padrões e prever comportamentos futuros, é muito provável que as temíveis AIs de filmes – tão próximas da mente humana – se tornem reais.
A quantidade de exemplos de sistemas que se organizam entre si através da interação de seus próprios membros gerando regras comportamentais é bastante grande e chama muita atenção de pesquisadores de diversas áreas. A formação de colônia por formigas sem a liderança de uma formiga-rainha e a organização de comunidades urbanas são dois bons exemplos desses sistemas emergentes.
Steven Johnson, autor do livro Emergência: a Vida Integrada de Formigas, Cérebros, Cidades e Softwares caracteriza sistema emergente como um sistema de múltiplo agentes, interagindo dinamicamente de diversas formas, seguindo regras locais e não percebendo qualquer instrução de nível mais alto. Elas devem, no entanto, gerar um macrocomportamento observável e relevante. Esses sistemas possuem um nível organizacional do tipo bottom-up, ou seja, os membros constituintes resolvem seus problemas com a interação de elementos relativamente simples, gerando um resultado com uma complexidade de nível mais elevado.
É impossível negar, no entanto, a predominância de sistemas que seguem uma forma organizacional top-down. Em um ambiente urbano, por exemplo, temos instituições mantidas por uma determinada liderança com intuitos de mantimento de ordem e segurança. Ao mesmo tempo, a comunicação informal dos moradores pelos diversos ambientes que vivem, fazem também emergir uma nova ordem que deve ser levada em consideração na organização do todo, já que geram divisões sociais e hábitos específicos bastante relevantes.
A abordagem desse tema é razoavelmente nova. Este passou por fases diferentes. Primeiramente havia apenas uma aceitação dessa realidade, sem um estudo mais aprofundado. Aos poucos o interesse de biólogos, urbanistas e criadores de softwares começou a se virar para o assunto e muitas pesquisas na área foram realizadas. Hoje estamos em uma fase de criação de sistemas emergentes artificiais. Johnson cita o caso de empresas, por exemplo, que já tentam exercer uma espécie de organização bottom-up. Funcionários de escalas mais baixas são motivados a se auto-gerirem em busca de bons resultados em troca de bônus e benefícios por parte de cargos administrativos mais altos. Isso, no entanto, pode ser considerado também uma forma disfarçada de top-down, já que através desse feedback o líder está exercendo uma espécie de controle.
Para exemplificar melhor estes conceitos, cito um exemplo usado na sala de aula. O Big Brother Brasil. Este reality-show, como muitos outros, consiste em colocar um determinado numero de pessoas desconhecidas entre si em um ambiente trancado e sem quase nenhum contato com o mundo de fora. Nessa casa existe uma série de regras pré-determinadas que eles devem seguir. Existem dias específicos de provas, festas e a cada semana uma eliminação. Mesmo com esse sistema de regras impostas por um alto nível, essas pessoas são livres para se relacionarem como bem entenderem. Desse modo eles formam grupos específicos de acordo com suas afinidades e acabam criando um sistema organizacional ali dentro com tribos diferenciadas. Essa organização as vezes atinge uma complexidade tão forte que acabam moldando a opinião do público e saem do controle do cérebro por trás daquilo. Isso poderia ser um exemplo perfeito de sistema bottom-up predominante sobre o top-down, no entanto, o líder organizador daquele jogo não gosta de perder as rédeas e acaba usando métodos disfarçados de controle, já que o público deve continuar acreditando que não há manipulação dos candidatos.
Por muitas vezes esse controle acaba saindo não tão disfarçado assim. Exemplifico com o vídeo abaixo, no qual, Boninho, diretor do programa, dá uma bronca em duas participantes por utilizarem um alicate não esterilizado. Essa forma de controle é corriqueira e acontecem pelos motivos mais banais, como uma conversa inapropriada. O áudio, porém, é sempre previamente cortado. Não foi o que aconteceu dessa vez.
Steven Johnson é um escritor americano, autor do livro Emergência: a Vida Integrada de Formigas, Cérebros, Cidades e Softwares. Nele, Johnson apresenta o modo como as colônias de formigas se auto-organizam, ou seja, o modo como constituem seu comportamento emergente coordenado. Por incrível que pareça, a formiga-rainha não tem um papel de autoridade como se costuma pensar. Ela não comanda as ações das operárias, ao contrário, as “colônias estudadas por Gordon mostram um dos mais impressionantes comportamentos descentralizados da natureza: inteligência, personalidade e aprendizado emergem de baixo para cima, bottom-up”. (p. 23) E sem líder, as formigas, constroem e organizam “por si mesmas” todo o trabalho do formigueiro, dando forma a um complexo sistema ordenado. Esse comportamento emergente, segundo Johnson, é uma mistura de “ordem e anarquia”.
A cidade, assim como o formigueiro, também é um fenômeno emergente, e é composta por outros vários sistemas emergentes menores do que ela: as vizinhanças, praças e shoppings, por exemplo, locais onde os cidadãos que a habitam interagem de modo improvisado e informal. Uma cidade é um conjunto de múltiplas interações locais que se misturam e formam a totalidade da vida urbana, e apesar de planejamentos centralizados de tipo top-down estarem sempre presentes, a ordem das cidades também depende em grande parte desta forma social emergente.
Não é nada fácil pensar em termos de sistemas emergentes sem mecanismos de controle, o modelo tipo top-down ainda é predominante. Porém, Johnson considera que quando se trata de um sistema emergente, é preciso desistir de tentar controlar e deve-se “deixar o sistema governar a si mesmo tanto quanto possível, deixá-lo aprender a partir de passos básicos”. (p. 174)
Assim, a emergência seria o “movimento das regras de nível baixo para a sofisticação do nível mais alto”. (p. 14) E um sistema emergente é sempre capaz de aprender e ir ficando mais inteligente com o tempo. Portanto, Johnson acredita que a cidade se torna “mais esperta, mais útil para seus habitantes. E aqui, outra vez, a coisa mais extraordinária é que esse aprendizado emerge sem que ninguém tenha conhecimento dele”. (p. 79)
Em Não por acaso, primeiro (e único até o momento) longa de Philippe Barcinski, os dois protagonistas mal se dão conta de que suas vidas são tão regidas pelo método quanto seus trabalhos, o que o filme deixa claro para o espectador desde o começo. Pedro (Rodrigo Santoro) fabrica mesas de sinuca; sua vida amorosa é tratada como uma jogada estudada com antecedência. Já Ênio (Leonardo Medeiros), é vigilante dos semáforos da companhia de engenharia de tráfego paulistana e se comporta de maneira semelhante: qualquer evento estranho que aconteça em sua vida pessoal é tratado por ele como um engavetamento. Pedro e Ênio são, em sintonia com o lugar onde moram, dois metódicos. Em um momento, o acaso pegará os dois personagens de surpresa e eles terão que dar um passo para fora de suas rotinas.
Acontece que um acidente em comum vira a vida dos dois de cabeça para baixo, tirando deles o controle prévio que mantinham em suas vidas: Pedro perde a namorada Teresa (Branca Messina), que é atropelada pela ex-mulher de Ênio, Mônica (Graziella Moretto), que também não resiste e acaba morrendo. São introduzidas então as personagens Lúcia (Letícia Sabatella), novo romance de Pedro, e Bia (Rita Batata), a filha que Ênio não conhecia.
Ao longo do filme, lentamente a metrópole ganha um resignificado: através de contraposições, a história de Ênio adquire uma espécie de liberdade e a narrativa vai se tornando fechada ao redor da trama de Pedro. A imagem de São Paulo vista do alto da serra, por exemplo, é de clima romântico. Entretanto, o modo como a cena foi construída e sabendo como ela foi levada até aquele momento, acaba se tornando um triste retrato da solidão de um homem. Por contraste, a feiúra de um viaduto no meio da cidade, o Minhocão, ganha densidade na trajetória de Ênio, que está descobrindo o dom de se relacionar com a própria filha. As imagens de viadutos e pontes de São Paulo estão sempre presentes na obra, compondo a estética e atmosfera que rodeiam o filme.
O carioca Barcinski vive há dez anos em São Paulo, e provavelmente por isso mantém no cinema um olhar ainda não-contaminado pela familiaridade e costume, conseguindo reparar na cidade sem indiferença. A graça de um ambiente que pode ser tão previsível como a capital paulista, é justamente enxergar a beleza que há nos acasos. Ênio e Pedro podem ser uma síntese de São Paulo nesse sentido, e o que o filme reserva para virar suas vidas de cabeça pra baixo são aquelas coisas que, por serem imprevistas, mantêm a cidade viva.
Obsessão e controle, encontro e desencontro, amor e isolamento, esses são alguns dos temas que o talentoso diretor Philippe Barcinski coloca nas entrelinhas de seu primeiro longa-metragem. Sua autoria é muito presente e uniforme: ele escolhe sempre simplificar, não para facilitar, mas sim para trazer significado. O filme traz a sensação de que o controle não é simples, exige esforço, energia, consome demais. Já o sabor do acaso, para o bem ou para o mal, carrega consigo um valor poético inexplicável.